
Todo dia, às 7:30 da manhã, eu atravessava Tirana a pé até a Mekla Fitness. Era uma sala pequena, com cheiro de borracha queimada e música albanesa no volume que não deixava conversa acontecer — exceto que acontecia. Três albaneses treinavam no mesmo horário que eu, todos os dias. Não falavam português, eu não falava albanês. O inglês deles era truncado, o meu também quando o cansaço chegava. Mas em algum ponto entre uma série e outra, eles decidiram que eu precisava aprender o básico.
Mirëdita. Bom dia. Mirupafshim. Até logo. Tungjatjeta. Olá.
Tentei repetir. Eles riram muito. Tentei de novo. Riram menos. Numa semana eu já chegava na academia e cumprimentava em albanês sem eles precisarem corrigir. Pequena vitória num idioma que não tem nada a ver com nenhum outro que eu conheço.
Foi ali que entendi o que a Albânia ia me dar: não o óbvio.
Antes de ir, eu sabia muito pouco sobre o país. Sabia que era nos Bálcãs, que tinha ficado isolado por décadas sob o comunismo de Enver Hoxha, um dos regimes mais fechados do século XX, que chegou a cortar relações com a União Soviética por considerá-la liberal demais, e depois com a China pelo mesmo motivo, e que tinha uma costa no Adriático. O resto eu ia descobrindo à medida que caminhava.
A primeira coisa que me surpreendeu não foi histórica. Foi linguística.
Albaneses acima de trinta anos falam italiano. Abaixo de trinta, inglês. A divisão é quase cirúrgica. Durante décadas, o único sinal de televisão estrangeiro que cruzava a fronteira albanesa vinha da Itália, e uma geração inteira cresceu aprendendo um idioma pela tela, antes que houvesse internet para aprender outro. Depois vieram os anos 90, a abertura e a emigração em massa para a Itália. Muitos foram e voltaram. Outros foram e ficaram.
O resultado prático: quando eu queria conversar com alguém mais velho em Gjirokaster ou Berat, eu usava o italiano que aprendi em Turim. Funcionava melhor do que o inglês. Às vezes melhor do que eu esperava.
Em Berat ficamos num BnB diferente de qualquer outro. O dono tinha passado por todos os períodos da Albânia moderna desde o pós-guerra, morado em vários países, e acumulado sete idiomas no caminho, cada um deles com uma história por trás. Era o tipo de pessoa que faz uma viagem valer não pelo lugar, mas pelo encontro.
Na segunda noite, às três da manhã, alguém começou a esmurrar a nossa porta.
Não bater. Esmurrar.
Passei pelos estágios do pânico em sequência rápida: confusão, adrenalina, e uma certeza súbita e absolutamente irracional de que iam nos sequestrar, roubar os órgãos e sumir com os passaportes. Fiquei parado sem respirar enquanto as pancadas continuavam. Depois pararam.
Nunca descobrimos quem foi. O que descobrimos, no dia seguinte, foi o possível motivo: a caixa d’água do quarto estava fazendo barulhos altos a noite toda, e algum vizinho deve ter perdido a paciência antes de nós. Não era sequestro. Era encanamento.
A Albânia me ensinou que o medo é um narrador péssimo.
Gjirokaster fica no sul, encravada numa montanha com casas de pedra empilhadas umas sobre as outras como se alguém tivesse tentado construir uma cidade e desistido no meio do caminho. É Patrimônio da Humanidade, mas não parece turística — parece habitada, que é coisa diferente. As pessoas que encontramos ali tinham aquela hospitalidade dos Bálcãs que não é performance: é princípio. A região tem uma tradição de tratar o visitante melhor do que trataria um vizinho. Não por subserviência, por orgulho. Você é convidado para entrar, para comer, para ficar um pouco mais do que planejou.
Eu não sei explicar direito o que é esse acolhimento. Só sei que é real.
O custo de vida em 2024 era baixo — refeição boa por poucos euros, apartamento decente em Tirana por um terço do que você pagaria em Lisboa. A comida é mediterrânea com influência otomana e merece atenção: o tave kosi é um cordeiro assado com iogurte que some do prato antes de você perceber; o byrek aparece em toda esquina em versões de queijo, carne ou espinafre; o fasule é um feijão cozido lento que aquece qualquer tarde fria; os qofte são bolinhos de carne temperados que funcionam como petisco ou prato principal; e os speca të mbushura, pimentões recheados, são o tipo de coisa que você pede de novo sem precisar ver o cardápio.
Os táxis são pontuais e baratos, os taxistas profissionais — num país pequeno, a reputação circula rápido e todo mundo parece saber disso. Segurança: me senti mais seguro em Tirana do que em várias capitais europeias. Exceto às três da manhã, mas isso foi culpa da caixa d’água.
A história pesa, mas de um jeito que você sente mais do que lê.
Skanderbeg é o nome que aparece em todo lugar — praças, estátuas, cédulas. Foi um comandante albanês do século XV levado pelos otomanos ainda criança, criado na corte do sultão, treinado como soldado otomano, e que no meio da vida virou e passou a lutar contra o próprio império que o formou. Durante décadas segurou a expansão otomana nos Bálcãs. Quando morreu, caiu também a resistência albanesa.
Vieram os otomanos de volta. Depois os italianos e alemães na Segunda Guerra. Depois, Hoxha e quarenta anos de bunkers, literalmente: o país tem mais de 170 mil bunkers espalhados pelo território, construídos pelo regime para uma invasão que nunca veio. Hoje viram galinheiros, depósitos, cafés e atrações turísticas. A resiliência albanesa tem humor.
Eu voltaria. Principalmente pro norte, onde as montanhas ficam mais altas e os vilarejos mais distantes. Tem uma versão da Albânia que ainda não vi e que já está me esperando.
Há países que entregam exatamente o que prometem. A Albânia prometeu pouco e entregou muito, e esse é o tipo de surpresa que uma viagem raramente repete.
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