
Voltei da Europa depois de meses em cidades que não eram minhas, Turim, Istambul, Siracusa, e a primeira coisa que fiz no Brasil foi sentar no sofá e abrir Anna Karenina. Não por disciplina. Por necessidade. Tinha passado semanas olhando para vidas de outras pessoas em outros países, e precisava continuar fazendo isso de alguma forma.
Foi ali que entendi que a viagem não para quando o avião pousa.
Essa lista não é de livros de viagem no sentido convencional. Não tem roteiros, não tem dicas de hospedagem. É uma lista de livros que mudaram como eu vejo o mundo quando viajo — ou que me fizeram viajar sem sair do lugar, que dá no mesmo.
Anna Karenina — Leon Tolstói
Li no sofá de casa, depois de meses fora. Isso importa porque a Rússia que Tolstói descreve, a rigidez da sociedade sobre as mulheres, as regras não escritas que determinam quem vive e quem não vive — ficou mais nítida depois de ter passado semanas num país que foi vizinho daquele mundo. Anna não é uma personagem que você acompanha: é uma personagem com quem você fica preso dentro de um sistema que ela não escolheu. O livro é longo. Vale cada página. (A edição da Companhia das Letras é excelente, comece por ela.)
Diário de um Mago — Paulo Coelho
O Caminho de Santiago contado por quem o fez de verdade, em busca de uma espada que é menos metáfora e mais missão pessoal do que parece. O livro começa devagar, Coelho ainda está encontrando o ritmo, mas depois da metade alguma coisa vira, e você sente o peso dos passos. O presente que ele dá no final, uma série de práticas para viajantes, não é apêndice: é a razão de existir de todo o resto. Motivador no bom sentido, que é quando a motivação vem de dentro da história, não de fora dela.
Minha Mocidade — Winston Churchill
Churchill foi enviado para a África ainda jovem, cobriu guerras, escapou de prisões, viajou por territórios que a maioria das pessoas nem sabia que existiam. Tudo isso antes da Primeira Guerra, antes de qualquer coisa que tornasse o seu nome conhecido. É um relato de formação escrito por alguém que ainda não sabia no que ia se formar, e isso faz toda a diferença. Li depois de oito meses entre Itália, Turquia e Albânia, e o livro fez sentido de um jeito que provavelmente não faria se eu tivesse lido em casa. Você lê e pensa: era assim que o mundo cabia numa mala.
Crônicas de Petersburgo — Fiódor Dostoiévsk
Não é um livro de viagem. É São Petersburgo pelos olhos de Dostoiévski — a cidade, os tipos humanos, o inverno, a névoa, as conversas de esquina. Mas há uma forma de literatura que só existe quando um escritor e uma cidade se fundem de tal maneira que você não consegue imaginar um sem o outro. Ler isso antes de ir à Rússia, ou depois, é viajar por dentro de um lugar que existe em paralelo ao mapa.
Prisioneiros da Geografia — Tim Marshall
Tecnicamente é geopolítica. Na prática, é o livro que vai mudar como você olha para qualquer fronteira, qualquer rio, qualquer montanha que cruzar. Marshall explica por que a Rússia não abre mão da Ucrânia, por que a China se comporta como se comporta, por que certas guerras acontecem onde acontecem, e a resposta, sempre, passa pelo chão embaixo dos pés. Depois de ler, você nunca mais olha para um mapa da mesma forma. Trago para qualquer viagem longa.
Siddhartha — Hermann Hesse
A busca de Gotama pelo que não tem nome. Hesse escreve com uma precisão que não parece vir do intelecto — parece vir de quem de fato ficou sentado à beira de um rio até entender alguma coisa. Li antes de passar três meses em Florianópolis em 2021, e a combinação fez sentido: tem algo na ilha que convida ao mesmo tipo de atenção que o livro pede. O que me marcou foi menos a iluminação do que o caminho: Siddhartha não encontra o que procura onde procura. Encontra depois, em silêncio, num lugar sem drama. Tem dias que isso parece a descrição mais honesta de uma viagem que já li.
The Storyteller — Dave Grohl
Sim, está aqui. Dave Grohl conta como se formou musicalmente, as piras com o Nirvana, como gravou o primeiro disco do Foo Fighters sozinho, ele era o único Foo Fighter então, e como foi conhecendo os ídolos que tinham construído o som que ele queria fazer. É um livro sobre viagem no sentido mais literal possível: turnês, cidades, estúdios em lugares que você não esperaria, palcos em países que ele mal sabia nomear. E é sobre o que acontece quando você chega onde sempre quis chegar e descobre que o processo foi a coisa toda.
Não existe viagem sem o que você leva na cabeça. Esses sete livros fazem parte do que eu levo — alguns na bagagem de mão, outros só na memória, que é onde as melhores coisas ficam de qualquer jeito.
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