
A primeira vez que pedi para uma IA escrever alguma coisa no meu estilo, fiquei olhando para a tela por uns dois minutos sem conseguir decidir se estava impressionado ou levemente ofendido.
O texto era bom. Não era meu, mas era bom.
Aquilo mexeu com uma coisa que eu carregava como certeza desde os meus primeiros textos: que a escrita era minha de um jeito que nada mais era. Que o jeito que eu conectava uma frase à outra, o momento que eu escolhia para abrir um parêntese, a palavra que eu preferia quando tinha duas funcionando, tudo isso era uma impressão digital. Inimitável por definição.
Bom. Era.
O que tenho para oferecer é mais simples: o que mudou no meu processo depois que comecei a usar essas ferramentas, e o que, para a minha surpresa, não mudou nada.
Comecei a usar IA de um jeito tímido, como alguém que entra num restaurante novo e pede o prato mais neutro do cardápio. Pesquisa, organização de ideias, revisão de gramática. Coisas que eu poderia chamar de “infraestrutura” — o que sustenta o texto antes de ele existir de verdade.
Funcionou bem. Melhor do que esperava.
Aí fui empurrando os limites, como sempre faço quando algo funciona. Comecei a pedir ajuda em parágrafos que travavam, em conclusões que não chegavam, em aberturas que eu sabia que estavam erradas mas não conseguia consertar.
A IA é muito boa em texto que funciona. Ela entende estrutura, ritmo, coerência. Ela não deixa você terminar uma ideia sem ter começado direito. Nesse sentido, é como ter um editor disponível às duas da manhã quando você está escrevendo numa cidade que não é a sua — Tirana, digamos, no quarto de um apartamento alugado com vista para um prédio soviético que alguém pintou de laranja na tentativa de esconder a história. Pode me ajudar com as palavras, mas não vai entender como é treinar numa academia frequentada só por albaneses e sair conversando em italiano, por incrível que pareça, com os mais velhos.
Mas ela é péssima em risco.
Não no sentido de segurança — ela recusa coisas, sim, mas não é isso que estou dizendo. Falo de risco literário. A frase que vai longe demais e quase não volta. O parágrafo que parece não ter lugar no texto até que, de repente, é o único que importava. A digressão que abre um buraco no meio da narrativa e deixa o leitor caindo.
Essas coisas a IA evita. Ela prefere o caminho que funciona ao caminho que arrisca. E eu escrevo, em grande parte, pelos caminhos que arriscam.
O que mudou, então?
Passei a escrever os rascunhos mais rápido. Não porque a IA escreve por mim, ela não escreve os meus textos, escreve os dela quando eu deixo, mas porque conversar com ela sobre uma ideia antes de escrever me ajuda a saber o que quero dizer. É como explicar um problema para alguém e resolver na metade da frase. A IA é um interlocutor paciente que nunca está com sono.
Também passei a confiar mais no que é meu. Paradoxal, mas verdadeiro. Quando você vê o texto genérico, competente, correto, sem arestas, você reconhece o que tem no seu que ele não tem. As arestas. Os desvios. A estranheza específica do seu jeito de ver as coisas.
O que não mudou?
O tempo que fico olhando pela janela antes de começar a escrever. A hora que escolho para trabalhar — de manhã, com café, antes que o dia aconteça. A necessidade de ter lido algo bom recentemente para conseguir escrever algo decente. A vontade de apagar tudo e começar do zero às onze da noite.
Tem uma coisa que a IA não faz, por mais que eu peça: viver no meu lugar. Não vai negociar minha passagem de ônibus em Tirana. Não vai tomar a decisão equivocada que me deu material para El Capitán. Não vai encontrar o lugar escondido que, ainda, não virou texto nenhum.
E a sensação, que não tem substituto, de terminar um texto e saber que ficou certo. Não perfeito. Certo.
O texto começa antes da tela. Sempre começou.
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