
A experiência albanesa demonstra como povos submetidos a séculos de opressão desenvolvem mecanismos culturais de sobrevivência e adaptação
A Albânia foi uma daquelas escolhas aleatórias que prometeu pouco e entregou muito. Por questões políticas europeias, vulgo limite do visto para ficar na Zona Schengen, nos obrigou, a mim e minha namorada, a escolher países fora dessa zona para não ficar ilegal e ter problemas depois. Um voo de Turim a Tirana, capital da Albânia, se faz em menos de duas horas – problema resolvido.
Não vou passar dicas do que fazer na Albânia, o que comer e onde. Há centenas de artigos dessa natureza, e inclusive não tenho interesse em escrever sobre isso. Vou trazer um pouco da história geral, até onde eu sei, e algumas curiosidades.
Minha primeira impressão era de calor absurdo e um aeroporto caótico. Tirana era uma bagunça, ninguém respeitava leis de trânsito, as pessoas cruzavam onde supostamente não era para cruzar, os carros cortavam avenidas para retornar sem ao menos esperar um retorno, e também, quando precisavam, paravam o carro no meio da rua e iam fazer sei lá o quê. Galera pilotando moto sem capacete era a regra. A cidade, até então, não era bela e o motorista que nos levou até nossa casa não falava uma palavra. O cenário estava engatilhado para nos dar alguma dor de cabeça.
Foi quando fomos recebidos pelo nosso hóspede que tivemos uma luz verde de que ali seria um lugar interessante. Ele nos recebeu muito bem e se colocou à disposição para qualquer eventualidade caso precisássemos. Dizer isso é esperar o mínimo, mas ele realmente se mostrou solícito.
Albânia foi um dos meus países favoritos, morei por 30 dias na capital Tirana e tive a oportunidade de visitar as principais cidades.
Símbolo de status
O interessante da Albânia é a quantidade de Mercedes e outros carros de luxo pela cidade, passei tempo o suficiente em outros países europeus mais desenvolvidos que a Albânia e não havia dez por cento do fluxo de carros de luxo que havíamos visto. Inclusive, o nosso táxi era um SUV Mercedes, nada mal para a primeira viagem. Entretanto, há uma explicação para esse fenômeno. Uma mistura de fatos históricos e algumas conclusões que talvez sejam infundadas.
É verdade que a Albânia ficou mais de 40 anos sob o regime comunista de Enver Hoxha, que fechou completamente o país com seus ideais leninistas, pois o regime comunista russo no momento, com Nikita Khrushchov liderando a União Soviética após a morte de Stalin, começou a se aproximar dos Estados Unidos de forma pacífica. Hoxha fechou as portas inclusive para a URSS, pois Khrushchov começou essa aproximação pacífica. Para o garoto Hoxha, apenas existia o regime comunista que Lenin criou, o resto disso era traição e balela. Entretanto, o menino Hoxha gostava de coisas boas, inclusive suas Mercedes. Ele e seus colegas andavam de Mercedes, enquanto a população se desfazia. Era o lema “tudo para mim, e nada para vocês”.
Essas Mercedes eram bens de status, apenas os poderosos poderiam usá-las. Quando o regime comunista caiu e o capitalismo começou a entrar aos poucos na Albânia, as pessoas que conseguiram minimamente enriquecer compravam Mercedes como forma de mostrar seu poder. Essa sensação de status ficou até hoje. Outro motivo que faz bastante sentido é que, na metade dos anos 90, quando não havia mais o comunismo instalado e o país estava começando a querer se estruturar, houve uma pirâmide financeira.
Pirâmide financeira nos anos 90
Durante 1996-97, a Albânia foi abalada pela ascensão e colapso dramáticos de vários enormes esquemas financeiros de pirâmide. Em seu auge, o valor nominal das obrigações desses esquemas chegou a quase metade do PIB do país, com aproximadamente dois terços da população albanesa investindo neles. Quando os esquemas entraram em colapso, ocorreram tumultos descontrolados, o governo caiu e o país mergulhou na anarquia e quase guerra civil, resultando na morte de cerca de 2.000 pessoas.
O surgimento desses esquemas pode ser atribuído à inexperiência dos albaneses com mercados financeiros após décadas de isolamento comunista, às deficiências do sistema financeiro formal do país e a falhas de governança. Embora a transição da Albânia para uma economia de mercado tenha sido relativamente bem-sucedida, a reforma do setor financeiro foi muito limitada.
Quando os esquemas começaram a desmoronar no final de 1996, o governo reagiu tardiamente. Apesar dos avisos do FMI e do Banco Mundial, as autoridades não alertaram adequadamente o público e continuaram a apoiar algumas empresas. Somente após o colapso completo e a subsequente agitação civil, um governo interino, com ajuda internacional, conseguiu iniciar o processo de liquidação dos esquemas e estabilizar a economia.
A experiência albanesa oferece lições importantes: a necessidade de um sistema financeiro formal funcional, uma estrutura regulatória eficaz e boa governança. Quando esquemas de pirâmide surgem, devem ser tratados rápida e firmemente, com investigações imediatas e congelamento de ativos. Os governos devem deixar claro desde o início que não compensarão os depositantes por suas perdas, evitando custos fiscais excessivos e risco moral.
Na minha percepção, deixar dinheiro nos bancos não era seguro e pessoas com mais condições precisavam transformar esse dinheiro em ativo: comprar carros. Junte o status de ter uma Mercedes e a necessidade de transformar o dinheiro em ativo, e temos carros. Mesmo que os carros percam valor, o dinheiro circula e pode ser vendido depois.
O país ainda está se levantando, criando seus prédios novos e infraestrutura de estradas e transporte. Mas há um longo caminho pela frente.
Voltando algumas centenas de anos, como em qualquer país europeu entre os séculos I e XX, as guerras tomavam conta. A escravidão entre vizinhos era a realidade e a religião tocava o terror. A Albânia não se safou disso. Vou contar um pouco sobre esse breve período.
Império Otomano
A Albânia fez parte do Império Otomano, por isso a cultura turca se mistura muito com a cultura albanesa, as comidas são muito parecidas, e boa parte da população albanesa é muçulmana. Antes de fazer parte do Império Otomano, a Albânia tinha um acordo com Murad II, sultão do Império Otomano. Eles não invadiriam a Albânia, mas em troca ela pagaria um imposto e daria como garantia o filho de um nobre albanês. Esse refém político é o famoso Skanderbeg.
Skanderbeg, cujo nome de nascimento era Gjergj Kastrioti, foi enviado ao Império Otomano como um refém político – uma prática comum no século XV para garantir a lealdade dos governantes vassalos. Seu pai, Gjon Kastrioti, um nobre albanês, tornou-se vassalo dos otomanos no início dos anos 1400. Para assegurar sua fidelidade, ele enviou seus filhos, incluindo Skanderbeg, à corte otomana.
Skanderbeg tinha cerca de 18 anos quando foi enviado, recebendo treinamento militar na Escola Enderun, uma instituição de elite do Império Otomano. Enquanto servia aos otomanos, ele subiu nas fileiras do exército, tornando-se governador do Sanjaco de Dibra em 1440. No entanto, durante a Batalha de Nish em 1443, desertou do exército otomano e retornou à Albânia.
Lá, liderou uma rebelião contra os otomanos, unindo nobres locais e estabelecendo a Liga de Lezhë em 1444. Os anos que passou no Império Otomano lhe deram experiência militar e conhecimento estratégico, que ele usaria mais tarde para resistir à expansão otomana nos Bálcãs.
O Império Otomano nunca conseguiu entrar na Albânia depois que Skanderbeg voltou à sua terra natal e se dedicou a manter a cultura albanesa. Apenas após a sua morte que o Império Otomano conseguiu o feito – Skanderbeg foi o homem que mais deu trabalho, ele era o escudo contra os otomanos que queriam chegar à Europa Ocidental.
Segunda Guerra Mundial
Outro ponto importante da história foi a invasão albanesa pelos alemães e italianos na Segunda Guerra Mundial. Esses não tiveram um minuto de paz.
Em 7 de abril de 1939, a Itália fascista, liderada por Benito Mussolini, invadiu a Albânia. A ofensiva envolveu cerca de 22.000 soldados, apoiados por uma frota naval e 600 aeronaves. A resistência albanesa foi limitada, embora episódios como a Batalha de Durrës tenham causado baixas significativas às forças italianas.
Após a ocupação, o rei Zog I fugiu para o exílio, e a Albânia foi anexada ao Império Italiano. O rei italiano Vítor Emanuel III foi proclamado “Rei dos Albaneses”. O país tornou-se um protetorado italiano, com sua economia e recursos naturais, como petróleo e cromo, explorados por empresas italianas.
Em 28 de outubro de 1940, a Itália lançou uma ofensiva contra a Grécia a partir do território albanês. Contudo, as forças gregas repeliram o ataque e avançaram para o sul da Albânia, ocupando cidades como Gjirokastër e Korçë. Essa contraofensiva grega foi interrompida em abril de 1941, quando a Alemanha nazista invadiu a Grécia para apoiar a Itália, forçando a retirada das tropas gregas da Albânia.
Com a rendição da Itália aos Aliados em setembro de 1943, a Alemanha ocupou rapidamente a Albânia para evitar o avanço aliado. Os alemães estabeleceram um estado cliente, o Reino Albanês, mantendo uma fachada de independência sob controle efetivo nazista.
Durante essa ocupação, os alemães exploraram intensamente os recursos naturais albaneses, especialmente o cromo e o petróleo, essenciais para o esforço de guerra nazista. Além disso, colaboraram com grupos nacionalistas albaneses, como o Balli Kombëtar, e formaram unidades locais, incluindo a 21ª Divisão de Montanha Waffen SS Skanderbeg, envolvida em operações contra partisans e em atrocidades contra civis.
A Albânia foi libertada em 29 de novembro de 1944 por forças partisans lideradas por Enver Hoxha, tornando-se o primeiro país dos Bálcãs a se libertar da ocupação do Eixo sem intervenção direta dos Aliados – Enver chegou como uma boa ideia, porém a história se mostrou o contrário.
Kanun
Há um ponto particular da cultura albanesa desconhecido pelo público geral que é o Kanun, um conjunto de leis tradicionais albanesas, ainda difundido nos campos. O livro Broken April do maior escritor albanês, Ismail Kadaré, conta em tom ficcional como funciona esse conjunto de leis.
O Kanun regulava aspectos essenciais da vida cotidiana, como propriedade, casamento, hospitalidade, hierarquia familiar e justiça. Um de seus pilares era o conceito de honra, que permeava todas as relações sociais. A prática da besa, uma promessa sagrada de confiança e proteção, era central para garantir a palavra dada e a segurança entre famílias e comunidades.
O Kanun também estabelecia normas rígidas sobre vingança de sangue (gjakmarrja), permitindo que famílias buscassem justiça por meio da retaliação, o que frequentemente resultava em ciclos prolongados de violência. Apesar de conter regras para limitar esses conflitos, como a exclusão de mulheres e crianças das represálias, essas diretrizes nem sempre eram respeitadas na prática.
Gjakmarrja significa literalmente “tomada de sangue” e refere-se à obrigação social de vingar a morte de um membro da família, geralmente por meio do assassinato de um parente masculino do agressor. Essa prática visa restaurar a honra familiar, considerada essencial na cultura albanesa. O Kanun estabelece que, em casos de homicídio, a família da vítima deve buscar vingança para “recuperar o sangue perdido” (gjak për gjak), perpetuando ciclos de violência que podem durar gerações.
Embora o Kanun permita a vingança de sangue, ele impõe regras específicas:
- Mulheres, crianças e idosos são tradicionalmente isentos de serem alvos.
- A vingança deve ser proporcional e dirigida ao responsável ou a um membro masculino adulto da família dele.
- É possível estabelecer uma besa (trégua sagrada) para negociações de paz.
As consequências da gjakmarrja são profundas:
- Famílias inteiras vivem confinadas em casa por medo de represálias.
- Crianças abandonam a escola e crescem em isolamento.
- A economia local sofre devido à desconfiança e instabilidade.
- A justiça estatal é frequentemente evitada, sendo substituída por julgamentos baseados no Kanun.
Durante o período comunista na Albânia, o Kanun foi oficialmente suprimido, mas ressurgiu após a queda do regime nos anos 1990, especialmente em áreas rurais onde o Estado tinha pouca presença. Hoje, embora o sistema legal moderno albanês tenha prevalecido, o Kanun ainda exerce influência cultural e moral em algumas regiões, refletindo a persistência de tradições ancestrais na vida contemporânea.
Milhares de bunkers
Além disso, quando o doido do Enver Hoxha estava no poder, ele acreditava que seria invadido por algum país. Ele levou isso muito a sério e espalhou bunkers por todo o país.
Estima-se que a Albânia tenha construído entre 170 mil e 750 mil bunkers durante o regime comunista de Enver Hoxha, entre as décadas de 1960 e 1980. Essas estruturas, conhecidas localmente como bunkerët, foram erguidas como parte de uma política de “bunkerização” para proteger o país de possíveis invasões estrangeiras.
Embora o número exato seja difícil de determinar, muitos desses bunkers ainda estão espalhados pelo território albanês, tornando-se uma característica marcante da paisagem. Alguns foram reaproveitados como museus, cafés ou abrigos, enquanto outros permanecem abandonados, servindo como lembrança do passado isolacionista do país.
Inclusive, fui a Tirana em dois museus que se encontram dentro dos bunkers, fazia muito frio naquele calor de 40 graus e cada ponto da história moderna albanesa foi contada em suas paredes e relatos. Posso dizer que, depois de conhecer um pouco da história albanesa, esse povo não teve um minuto de paz – e nem coloquei Kosovo e a treta da Sérvia aqui.
Outro ponto crucial é que há mais albaneses fora da Albânia do que vivendo em sua terra natal. Mais de 90% da população de Kosovo são da etnia albanesa, há comunidades na Macedônia do Norte, Grécia, Estados Unidos, Alemanha, Itália, Turquia, entre outros. Como muitas dessas pessoas enriquecem fora, eles enviam dinheiro à Albânia – assim é possível comprar carros legais! E ajudar os familiares.
Caminhando pelo país, você vai se deparar com o fato de que a população jovem já tem um bom domínio do inglês, e as pessoas acima dos 30 anos falam italiano perfeitamente. Foi assim que sobrevivi lá, na base do italiano e inglês – o italiano veio com a proximidade dos dois países e também porque a transmissão da TV italiana chegava na Albânia. Quem disse que não se aprende idiomas assistindo TV está mentindo – ajuda bastante, os albaneses sabem disso.
Eu me impressionei positivamente com o país, é um lugar que não deve ser levado pelo estereótipo que filmes americanos marcaram os albaneses. Não é assim, não vi nada esquisito e me senti super acolhido e seguro. Há um dito que as visitas para os albaneses são as pessoas mais importantes de suas casas, talvez eles levem essa cultura para dentro do seu país quando estrangeiros chegam. Conheci pouco, mas pretendo explorar mais esse belo país.
Trouxe um pouco da minha visão sobre alguns fatos históricos, mas a história albanesa que escrevo é apenas um resumo do resumo.
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