
Por que esperar uma situação inusitada acontecer, se já podemos fazer com que aconteça quando possivelmente não deveria acontecer? Quinze horas depois, entre aviões e salas de embarque, chegamos tarde da noite em Barcelona, no aeroporto Barcelona-El Prat. As poucas malas, até então com o necessário, estavam em nossas mãos. Mochilas, check. Passaportes, check. O espanhol em dia, nem tanto assim.
Era uma noite fria enquanto esperávamos o Uber chegar para nos levar à casa de nosso amigo em El Raval, conhecido por pessoas e blogs aleatórios como um dos bairros mais perigosos da cidade. Há níveis de perigo, não nos sentimos desconfortáveis lá como já havíamos nos sentido em outros lugares no meu próprio país.
O carro do Uber era um modelo da Hyundai, um carro de pequeno porte que brotava aos montes pelas ruas do aeroporto. Carros monocores entre preto, branco e cinza. Avistamos o nosso carro, tão igual quanto aos outros, acenamos e o nosso motorista parou para nos buscar. Um argentino que morava em Barcelona há mais de dez anos.
Depois de uns dez minutos dentro do carro, ele recebe uma ligação. Uma mulher havia ligado para ele, também argentina, dizendo que o estava esperando no aeroporto há muito tempo e que ameaçou reportá-lo por tê-la abandonado na área de desembarque, pois se sentiu roubada. O suposto Uber havia deixado ela para trás para nos levar. Como assim? Entramos no carro errado. Era o mesmo modelo de carro que havíamos pedido, a placa era quase a mesma. Checamos melhor o que se passava e, depois de verificar novamente, percebemos que o nome do nosso Uber era outro e apenas o último dígito da placa era diferente. Quem checa depois dos últimos 3 ou quatro dígitos da placa? Pois deveríamos.
Não entendemos nada, e a rota que ele fez era totalmente diferente do que havíamos pedido, pois supostamente ele estaria levando a outra passageira. Ele ficou desesperado porque não poderia ser banido do aplicativo. Aparentemente, o que ele fez, além de ser vítima do mesmo engano que nós, foi ter confiado em nosso aceno sem ao menos conferir quem éramos. Também erramos ao não checar o nome dele, nem o último dígito da placa.
Como aquele era o sustento da família, ser banido significava perder sua renda tão suada. Definitivamente não queríamos que isso acontecesse. Ele ligou para o Uber para tentar reverter a situação; eu mesmo me prontifiquei para mandar os prints do celular da minha corrida perdida. Assim como queríamos voltar à nossa rota, da qual, aliás, nos distanciávamos ainda mais, ele queria ainda poder trabalhar no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. Na minha cabeça se passava: “o primeiro dia de uma viagem de nove meses, what a day”.
No meio do caminho, ele recebeu a ligação de um cliente que falava inglês e nos passou a ligação porque não entendia um “a” do que falavam. Não bastavam os dois passageiros aleatórios que pularam no seu carro, agora um estranho liga pedindo informação, coisa que nem eu me lembro do que se tratava. Fazia um frio impossível e estávamos cansados. A viagem que deveria durar 20 minutos até a casa de nosso amigo durou cinquenta minutos.
Não foi de todo ruim. Depois que a pressão de ter largado a verdadeira passageira passou (imagino que ela conseguiu outro Uber), conversamos. Ah! Essa mulher o chamava de “estafador”, vigarista em espanhol, e definitivamente esse homem não era um estafador. Apenas erramos, mas como convencê-la do contrário? Até hoje ela deve dizer que foi enganada no aeroporto de Barcelona por um conterrâneo que fugiu com o seu dinheiro e outros dois passageiros. Espero que ela não tenha um blog de viagens, essa seria a fake news do ano: “Argentino me engana num aplicativo de carona e foge em aeroporto de Barcelona”. Se ela estava estressada por isso, ele estava muito pior.
Conversamos com ele, mostramos que éramos pessoas confiáveis, pois também caímos no mesmo infortúnio. Estávamos sambando a mesma lástima, caímos na mesma vala ao mesmo tempo. Tudo isso em nosso primeiro dia, um dia que fazia um frio de morrer, um dia em que estávamos privados de sono e com fome. Se tal situação não tivesse acontecido no dia 1, talvez tivesse acontecido no dia 2 ou o seguinte. A sorte ou o infortúnio é uma roleta russa, apenas acontece.
Finalmente seguimos o caminho certo. Havíamos combinado com ele como poderíamos resolver: passei o meu número, falamos que aquela corrida seria paga em dinheiro e no final da noite sairíamos com alguma história nova. Ele se mostrou muito tranquilo e disposto a nos contar sobre Barcelona e o que o motivou a se mudar para a Espanha – trabalho e qualidade de vida. Comentamos que havíamos morado em Buenos Aires e Bariloche, e o quanto amávamos as duas cidades. Ele se alegrou; nada mais encantador que estrangeiros falando com tanto amor do seu país que deixara para uma vida melhor. A forma que víamos Buenos Aires era totalmente diferente da dele, por mais que amasse o próprio país.
Barcelona nos pregou uma peça talvez de mau gosto no início, mas depois relevamos; mais situações dessas ainda aconteceriam nos próximos meses. Estresse por conta de carro trocado? Não mais. Ele nos deixou a vinte metros da nossa casa, em um bairro com ruas curtas e muito lixo jogado no chão, e algumas pessoas que caminhavam e fumavam pela rua. Nada de assustador. Nos despedimos de nosso colega, pagamos a ele, e pela primeira vez ele sorriu e nos desejou boa sorte em Barcelona. Largamos as malas e fomos comer um kebab.
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