Pelo Mundo

O polvo, o prêmio perfeito

O inverno estava há algumas semanas para dar os primeiros sinais. Não havia nenhum banhista na praia de Cala Rossa em Ortigia, Siracusa, não por isso o sol não dava trégua para quem estava esticado tomando sol. O bronze era a marca principal daquelas figuras recorrentes na praia. Italianos, nativos daquela cidade onde foi a casa de Arquimedes, viviam la dolce vita naquela praia de 50 metros de extensão. A maré estava baixa, a temperatura da água começou a esfriar, mas o sol não a deixava chegar ao nível “frio de doer”. Daqui a algumas semanas eu sabia que tudo aquilo entraria para a caixa de sonhos realizados, posso dizer, depois de anos falando em voz alta, que eu moraria na Itália e Siracusa foi uma das cidades contempladas nesse sorteio.

Coloquei o snorkel e fui, naquela pequena baía, tentar encontrar alguns peixes, pois eles estavam aos montes. Mas dessa vez eles não estavam aos montes, mas apenas dois que seguiam um pequeno polvo. Fiquei imóvel debaixo da água encarando-o com minha gigante máscara de mergulho amarela, quando ele parou depois de nadar alguns metros. Eu tinha encontrado o meu tesouro, o resumo de oito meses de uma longa e incrível viagem. Toda minha experiência desde quando embarquei em Guarulhos rumo a Barcelona, até o aeroporto de Catânia de volta ao Brasil se materializou em um polvo.

Foi como se eu fosse convidado para o último mergulho, um convite que apenas eu tinha recebido, e o meu anfitrião era um polvo e seus dois acompanhantes peixes. Olhei entre as pedras e nada de vida marinha, olhei para um pouco mais longe dentro d’água e nada, estávamos apenas nós quatro. Pode ser o acaso, um sinal, um presente ou apenas a vida sendo a vida, mas aquele polvo esteve em minha cabeça em muitos momentos.

Durante trinta segundos nos encaramos, pois ele parou em uma pedra, enquanto eu já estava parado na minha. A nossa presença não nos assustava, eram dois seres que respiravam o mesmo ambiente, mesmo que o meu “maquinário” me permitisse o fazer de forma artificial, estávamos na mesma altura. Aquela foi uma das últimas vezes que mergulhei, Siracusa foi a minha última cidade de 2024, recebi o prêmio desses últimos oito meses.

Ficamos oito meses fora, e os polvos têm oito tentáculos, cada mês um tentáculo. O primeiro tentáculo foi a nossa vida na península Ibérica, o segundo e terceiro carregaram as nossas vidas em Turim, o quarto nos levou a Tirana, o quinto e sexto nos guiaram a Istambul e fechamos o sétimo e oitavo com Siracusa. Cada tentáculo possui cerca de trezentas ventosas. Cada ventosa foi um momento, uma conversa com um desconhecido, um ônibus que pegamos, um cornetto que comemos, um museu que visitamos, um gato que nos adotou, um mergulho, um trem que perdemos, uma conta que pagamos a mais, os amigos que reencontramos e os milhares de passos que demos. Espero que você esteja se divertindo, senhor polvo.

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